segunda-feira, 18 de agosto de 2008

ÁGUA CORRENTE

Para Maria Vitória


Meu coração está cheio de água
Com cheiro de chuva de minha infância
Água de rios e mares
Que trafeguei em viagens sonhadas
Água de poças estagnadas
De lágrimas contidas

No meu coração assustado
Há também córregos de águas límpidas
Correntes para o tempo infinito

Meu coração está cheio de medo
Do incerto previsível

Meu coração está cheio de emoções
Novas e perplexas
De estranha alegria
Com esperança do que virá.

sábado, 7 de junho de 2008

O SALTO DA SANDÁLIA

No bojo das lembranças e debates acerca de 1968, vou contar pra vocês uma experiência vivida em dezembro daquele ano, quando fazia faculdade em São Paulo, na cidade de Ribeirão Preto, militante aguerrida e dirigente do movimento estudantil paulista.
Àquela altura, já havia sido decretado o Ato Institucional n° 5, o AI 5, em 13 de dezembro. Também havia sido desbaratado, em 12 de outubro, o movimento estudantil com a prisão de mais de mil estudantes, no sítio de Ibiúna no interior de São Paulo. As lideranças estudantis que escaparam de prisões e as que ficaram preparavam focos de resistência, sobretudo, em São Paulo e Rio de Janeiro, onde esse movimento era mais forte.
Em Ribeirão Preto, organizamos uma passeata que ocorreria às 18h, por conta da aglomeração de gente nesse horário, em torno da rodoviária, distante do centro da cidade. Ao mesmo tempo, definimos como estratégia de segurança a divulgação boca a boca que a mesma dar-se-ia no centro, na principal praça da cidade.
Pela manhã, tivemos uma reunião de checagem dos preparativos e a mesma prolongou-se além do previsto, por conta de uma polêmica de encaminhamento, e não pude ir em casa trocar de roupa e, principalmente, colocar um tênis.
Fui comer alguma coisa com um companheiro num boteco e quando saíamos de lá, tropecei e caiu um salto de cerca de 4 cm de um pé da minha sandália.Vivi, então, um dos dramas da minha vida:
- Não acredito! Quebrei o salto de minha sandália.
- E agora, Rose?
- Que vou fazer? Não dá para ir assim pra passeata.
- Sua casa é aqui perto? Não dá tempo de você ir lá?
- Nem pensar, o encontro com o pessoal para passar as senhas é daqui a 1h20 min.
- Tive uma idéia. Vamos ao banheiro tentar arrancar o salto do outro par da sandália.
- Perfeito. Assim, ficarei com a sandália sem nenhum salto.Grande idéia, André!
Voltamos ao boteco e André dirigiu-se ao dono:
- Você tem um alicate, uma faca grande, algo do tipo?
- Bem, vou ver. Mas, você precisa disso pra quê?
Apressadamente, André explicou ao dono do bar, pegou a faca e nos dirigimos ao banheiro, meio desconfiados, pois tínhamos que entrar os dois juntos.
- Segura firme a sandália, Rose, que vou enfiar a faca.
- Meu Deus, isso é perigoso, se você errar o alvo pode cortar minha mão
- Não tem jeito, vamos lá.
Depois de várias tentativas sem conseguir arrancar o salto que estava preso mais fundo do que raiz de mangueira, André banhado em suor, rendeu-se:
- Não adianta mais, desisto. Só temos 45 minutos, vamos correr para os nossos contatos.
- E eu? Vou desse jeito? Com um pé de sandália com salto e outro sem?
- Não vejo outro jeito.
- Tô ferrada! Só pode ser castigo dos milicos.
E saímos os dois em disparada.
Quando cheguei ao local da passeata, meu corpo doía todo, meus pés eram uma desgraça só. Eu havia me transformado numa falsa manca revolucionária, por obra e graça de um salto de sandália.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

ANOS REBELDES DOURADOS

1968 é ano de lembranças, balanços e saudades. Talvez a pergunta mais presente seja: - “O que foi feito de nós, geração 68?”
Quanto mais vivo, menos rebelde e mais serena vou ficando. Seria assim com todos nós, com todas as gerações? Também me pergunto se não existem mais jovens rebeldes como no passado.
É lugar comum entre as pessoas duas afirmações: a primeira, que não são saudosistas e a segunda, que não se arrependem de nada que fizeram. Eu desconfio de ambas. Eu, ao contrário, me proclamo assumidamente saudosista ao cubo e me arrependo ao quadrado, de muitas coisas do meu passado.
Hoje, falarei um pouco de minha geração. E na linha do Zuenir Ventura, apontarei marcas que ficaram daqueles anos rebeldes dourados porque envoltos em pura luz de sonhos e quereres juvenis.
Quando olho pra trás e me vejo nos anos sessenta, o que as emoções remexidas no tempo me sussurram aos ouvidos são sentimentos de fé, coragem e ousadia. A gente acreditava mesmo que poderia mudar o mundo. Havia dentro de nós a coragem pra enfrentar todos os dragões de nosso caminho. E a gente carregava na mente e nos corações a ousadia capaz de virar o mundo pelo avesso. Éramos encouraçados pela insensatez dos sonhadores.
Éramos, de fato, a geração brancaleone e nossos ídolos, de ferro e fogo, símbolos de paixão, sonhos e liberdade.
Esses jovens guerreiros conseguiram sacudir as estruturas apodrecidas, revolucionar os costumes, plantar as bases de nova sexualidade, colocar a mulher na rota de sua plena emancipação, sedimentar o chão dos novos arranjos familiares de hoje e, especialmente, cultivar o primado da ética e o germe da busca da liberdade. Esta, sim, foi o maior legado que os filhos dos anos sessenta deixaram.
Olho novamente pra trás e o quê vejo? Os de ontem, loucos, ingênuos, deslumbrados, apaixonados, generosos, lunáticos, audaciosos.
Os de hoje, muitos (ainda) loucos, desiludidos, desbundados, desesperados, destemperados, sobreviventes...
Os também de hoje, muitos desensonhados, desencaminhados, remodelados, reideologizados, burocratizados, travestidos...
Todos nós, perdidos no tempo, cercados de dragões de aço...

sábado, 3 de maio de 2008

METÍNCULOS E LEVÍNCULOS

Há muitos anos atrás, quando eu morava em Londrina e trabalhava na Universidade Estadual do Paraná, tinha um amigo, o Ivan, de outro curso, que era muito divertido e espirituoso. Certa vez, quando conversávamos, um grupo de amigos, sobre pessoas que só se dão mal na vida, ele veio com essa: -- “Sabem de uma coisa, na vida só existem dois grandes grupos: os Metínculos, os que só levam a melhor e os Levínculos, os que só se dão mal”. E ficamos um longo tempo, entre um chope e outro, lembrando de casos de conhecidos que se enquadravam nessa “teoria” do nosso amigo.
Hoje, fiquei com vontade de brincar um pouco, tentando desenvolver essa teoria, que a meu juízo, tem muito de verdadeira.
Quem de nós não conhece protagonistas desses dois grupos? Vale lembrar que, como em todos os grupos, há frações como resultado de cruzamentos os mais diversos entre os tipos originais. Poderia começar dizendo que os Mentínculos são os que estão sempre na subida do morro e os Levínculos na descida da ladeira. Ou que os primeiros vivem metendo lenha e os segundos estão sempre cuidando dos prejuízos.
Se tiver que fazer um breve perfil desses personagens, diria que os Metínculos geralmente, por força do ofício, são pessoas loquazes, sedutoras, tidas como bom papo e boas companhias, portanto, a priori, candidatas, a levarem a melhor, em qualquer dos seus intentos. Os Levínculos, até por força do contínuo sofrimento, são mal humorados, pessimistas, chorões, não raro más companhias, logo, predispostos a se darem mal nas suas empreitadas.
Como o ser humano é um ser complexo, muitas vezes, os Metínculos são perdoados com facilidade em suas ações de mau caratismo, possivelmente em razão de sua simpatia no pedaço. Afinal, eles não dão o pão, mas oferecem, o circo (com ônus, é certo), a quem quiser usufruir de sua companhia. Por sua vez, os Levínculos, apesar de sua correção, nem sempre contam com solidariedade nos seus freqüentes fracassos, também porque são pessoas pesadas e oferecem pouco na sua convivência, afinal, há que se ter um pouco de pilantragem pra animar a vida.
De outro prisma, há um contraponto entre esses dois grupos que acaba facilitando a sobreposição de um sobre o outro. É que no terreno dos Metínculos, há mais organicidade, eles são mais estruturados, mais conformados na sua versão de tirar vantagem, há como um certo orgulho na sua contabilidade de passar os outros pra trás. Já os Levínculos, como se sabe, no terreno do bem, há uma grande dispersão, eles até são a maioria, mas de nada adianta, pois não têm aquele charme, aquela competência pra fazer valer suas ações e enfrentarem seus opositores.
E tem ainda um detalhe que faz toda diferença: a sorte está com os Metínculos, eles ganham loteria, rifas, bingos, são uns danados, nesse particular. Os Levínculos, coitados, não ganham nem sorteio da paróquia ou culto do bairro nem mesmo rifa que corre em família. Quando tiveram algum ganho desses, foi em aposta de briga de galo na periferia da cidade entre galos caidaços, que quase nem conseguiam bicar um ao outro. Como vêem, dá vontade de chorar com pena desses irmãos em Cristo.
E o pior de tudo: parece que os Levínculos têm uma atração fatal pelos Metínculos. Logo, é caso perdido...
Enfim, meus caros, o restante dos humanos mortais, são todos cruzamentos variados de classe social, de geração, de etnia, de gênero, e até de sexualidade, dos capitães desses dois grandes times, modelitos da sorte e do azar. Podem conferir! E depois me contem...


sábado, 26 de abril de 2008

POESIAS / LETRAS DE MÚSICAS (ROSE SERRA)

O Que Sinto por Você
É vento de litoral
É mar de maré cheia
É sol de verão
Lua cheia de mistérios
É fogo de fogueira de São João
É lava de vulcão (Refrão)

O que sinto por você
É vento de litoral
Barulhento e ligeiro
Cantando teu nome
O tempo inteiro

O que sinto por você
É mar de maré cheia
Cobrindo a areia
Esfriando meu corpo
Tão quente de desejo
Carente do teu beijo

O que sinto por você
É sol de verão
Ardente e braseiro
Envolvendo meu corpo por inteiro
Chamando por você
Querendo só você

O que sinto por você
Lua cheia de mistérios
Iluminando o teu amor
Nos caminhos brejeiros
Por dentro de mim

O que sinto por você
É fogo de fogueira de São João
Labareda incandescente
Queimando o meu corpo tão ardente
Ardente de desejo
Ardente por teu beijo

O que sinto por você
É lava de vulcão
Fervilhando, ardendo em brasa
Explodindo cá dentro do meu peito
Queimando por você
Todinha por você


Alegria Triste

A vida é dor
É ilusão, é fantasia
O coração se defende
Na emoção
Com riso, sedução
Sexo e paixão

O riso
Companheiro do humor
Debocha das dores da vida
É a compressa
no meu coração ferido

A sedução costumeira
Se vinga da solidão vazia
Que ronda
meus dias sombrios

O sexo fácil é fachada
Da saudade
De ti, de nós
É o avesso
Da sua presença
marcada em mim

A paixão é voraz
Queima meu corpo e minha alma
É o alimento que mistura
Prazer e dor

Mas quando me olho
O que vejo
São olhos tristes
Disfarçados de alegria
De bar e de cerveja


Meu Amor Derradeiro

Meu amor derradeiro
É você
Espalha-se pelo corpo
Como água corrente
Em todos os poros
Lavando minha alma

Esse amor derradeiro
Não tem tempo
Porque é o tempo inteiro
Não tem pressa
Porque é preguiçoso
Não tem medo
Porque tem ancoradouro

Assim é esse amor
Que sinto por você
Amor de hoje e de sempre

Abençoado amor
Esse amor derradeiro

sábado, 19 de abril de 2008

VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇA – A PIOR DAS VILANIAS

Esperei a confirmação do que as aparências indicavam para manifestar minhas emoções. Por uma questão de convicção, não gosto de acusar ninguém sem que haja evidências de sua culpabilidade.
A reação nacional à morte da pequena Isabella é uma lavagem da nossa alma.Trata-se de uma morte cujos presumíveis assassinos são o pai e a madrasta de uma criança indefesa e praticada de maneira cruel e em articulada e criminosa parceria. O que ela sofreu naquela noite foi uma caminhada para a morte, com sessões contínuas de tortura. Esta morte nos horroriza e expõe a nossa humanidade, já tão desumanizada nestes tempos de insensibilidade generalizada. Não faço distinção entre quem é o maior responsável pela morte de Isabella, pra mim os dois são culpados, sendo o pai, por ser o pai, de fato, o maior culpado. Seja porque sua preocupação principal foi tentar ocultar a responsabilidade da mulher ao jogar pela janela a menina, quando imaginou que ela já havia morrido ao invés de gritar por socorro pra sua filha agonizante. Seja porque resiste a contar a verdade pra assumir a culpa por esse crime hediondo. E, sobretudo, pelo já comprovado pericialmente: que foi a queda que provocou a morte dessa pequena inocente.
Nesses vinte dias, sofri muito e sofro ainda, chorei e ainda choro, tive pesadelos, noites dormindo pouco, pensando na condição humana de bestialidade a que chegou o chamado ser humano. Não encontro respostas satisfatórias, mais uma vez, frente a este fato, para a pergunta que já me fiz muitas vezes na minha vida: o que de mais cruel habita potencialmente as mentes e corações de adultos que os levam a cometer atos tão violentos contra as crianças? E, em especial, meu Deus, o que pode explicar que pessoas que supostamente amam suas crianças as maltrate costumeiramente, levando-as até a morte? Como a família, que deve ser o lugar da proteção e da segurança infantil, pode se transformar no território da ameaça, da crueldade e até da morte. Por quê? Por quê?
Tenho buscado, dentro de mim, alguma explicação, à medida que vou sendo testemunha, nesses tempos macabros que vivemos, da violência contra as crianças, pelo nosso planeta afora. Uma das explicações que penso ter peso significativo, tem a ver com essa invencionice estúpida que os pais e/ou responsáveis podem agredir fisicamente os filhos, em nome de uma suposta educação. Onde surgiu isso, esse considerado direito? Em nome de qual teoria foi ele legitimado? Pergunto: qual o limite do tipo e dosagem que a utilização dessa ação covarde pode ser consentida, tolerada? Enfim, qual o real sentido do uso desse expediente agressivo senão fomentar na convivência com as crianças a cultura do medo, da opressão, em razão dos laços de pátrio poder, de responsabilidadesl pelas mesmas. Continuo especulando: o que é permitido nessa ação paterna/ materna? Somente puxar as orelhas, dar um tapinha nos ouvidos, uma sacudidela, um empurrãozinho? Ou também uma surra com cinturão do pai, com uma corda da mãe, um chinelo de ambos, uns tapas mais contundentes nas caras infantis, uma violenta puxada de cabelo, uns chutes no seu corpo?
Ora, meus caros, vamos convir, que bater ou não em alguém, é ou não é lícito. A classificação desse ato em graduação ou pós-graduação em violência, é conversa pra boi dormir. Sou e sempre fui radicalmente contra essa história de que criança deve apanhar pra ser melhor educada. Penso ser este o maior atestado da incompetência do ato de educar; é, também, a expressão da morada nos recônditos violentos dos pais que assim agem, da sua porção violenta, da resposta, através dos filhos e/ou parentes, às suas necessidades agressivas, descontando nos mesmos suas frustrações, sua vontade enviesada de bater em outros adultos, enfim, do extravasamento dos seus desejos de agressão. Afinal, esse alvo infantil não lhes causa nenhuma ameaça nem a possibilidade de alguma reação. Porque, sobretudo, contam com o silêncio da vítima que, por temor e por conta das recomendações ameaçadoras do agressor, não denuncia a ninguém sua condição de vítima na sua própria família.
E tem mais: a violência dos pais com os filhos se reproduz indefinidamente, pois, os filhos agredidos serão pais violentos e, assim por diante. É o palco mais eficiente de escola de violência.
Por tudo isso, essa é a maior das vilanias. Aquela de mais difícil enfrentamento. Por vezes, escondida e silenciosa. Nos quartos e salas de todas as classes sociais. De todo tipo de gente. Das também pessoas gentis e educados fora de seus lares. Dos que praticam credos religiosos de todo tipo. Dos que são adeptos de teorias revolucionários a favor dos explorados e oprimidos. Enfim, desse chamado ser humano que tem em casa um laboratório disponível, cujo pré-requisito é tão somente ter, adotar filhos ou cuidar de crianças por esse mundo sem Deus.
Denunciemos nossos vizinhos, desconhecidos e até nossos conhecidos, se por ventura identificarmos que uma criança, sob sua guarda, corre perigo. É o mínimo que podemos fazer para o enfrentamento dessa covarde vilania. E, em defesa efetiva dessas crianças.
De minha parte, estou envergonhada da minha espécie. E choro por todos nós, os seres ditos humanos.

sábado, 12 de abril de 2008

DE FILHA DE MARIA A FILHA DE IANSÃ

Não tenho religião, mas aprecio a religiosidade e sou, digamos assim, espiritualista. Uma marxista espiritualista. Deu pra entender? Esta questão está sempre presente em minha vida como algo que me interessa enquanto um componente de estudo da Antropologia, e também como significado da religião na vida das pessoas ou expressão das emoções humanas.
De todas as religiões que pude conhecer ou ter contato com seus adeptos ao longo de minha vida, as de origem africana foram as que mais me sensibilizaram, penso que por conta de suas expressões e de seus rituais muito ligados à natureza, aspecto que me fascina em muitos territórios da vida.
No entanto, nem sempre pensei e senti dessa maneira. Séculos atrás, quando fazia o antigo ginásio em regime de internato, em colégio das freiras Dorotéias, irmandade muito chique da minha terra natal, o mesmo colégio onde estudou minha amiga Josefa Baptista Lopes, cheguei a ser filha de Maria, simbolizado numa fita azul em volta do pescoço, sinal de que eu prometia no futuro ascender nesse terreno religioso. Ao mesmo tempo, já apresentava os primeiros sinais de minha rebeldia, traço genético de minha personalidade. Implicava com alguns dogmas dessa religião. Por exemplo, a história de Cristo não ter nascido do ventre da Santa Virgem Maria e, sim, via Divino Espírito Santo, que vinha a ser uma pomba, assunto já abordado em crônica aqui, postada tempos atrás. Achava essa versão, no mínimo, um conto infantil. Também já me rebelava com a condição de castidade imposta aos padres, que não podiam se casar, soando aos meus adolescentes ouvidos como uma espécie de repressão sexual.
Tempos depois, já adulta, compreendi que aqueles sinais já anunciavam o meu futuro de transgressora bio-psico-social...e sexual ..rs.
Quando tive meu primeiro contato com a religião afro, eu achei um barato, aquele ritual alegre, as danças dos orixás, lindas e sensuais, aquele sentido de ajuda sem imposições, enfim, tudo isso me seduziu. Mas já lhes disse aqui nos meus escritos anteriormente que, à medida que vou vivendo, mais estou convicta que tudo é uma mistura geral, uma “metamorforse ambulante” , portanto, uma geléia ampla, geral e irrestrita. Quem não muda nada, já morreu, por dentro.
Mas, apesar dessa atração pela religião afro, não me filiei à mesma porque sou, de certa forma, meio como quê, infiliável, não gosto muito de ter que fazer isto ou aquilo, gosto da liberdade de aderir a, quando bem me der na telha. Daí, por vezes, vou a lugares onde a proposta é de sincretismo, uma mistura de catolicismo com espiritismo e com afro e com mais alguma coisa. Foi numa dessas minhas experiências que a Mãe de Santo de uma Casa dessa natureza aqui no Rio, deu a mim o sinal que eu sou Filha de Iansã, coisa aliás que eu já descobrira em outros paragens, já tinha lido sobre Iansã, a rainha dos ventos e tempestades, e me identificava com essa senhora orixá. Contudo, reitero, a minha ligação é pra ser do meu jeito, sem pré-requisitos e sem obrigações. Quando a Mãe de Santo referida completou, me dizendo: “você está pronta pra ser uma das nossas”, eu literalmente fugi, morrendo de medo das implicações dessa sinalização.
Penso que não sou chegada a ser uma religiosa formalmente, já pensaram eu atuando como integrante de um terreiro de umbanda, que prefiro à candomblé, aliás, não sei bem porquê, dançando, dando passe, tudo que implica essa religião, não me parece que levo muito jeito. Ou sim? O que vocês acham?