sábado, 1 de março de 2008

O QUE ASSUSTA PODE ATRAIR E... ATÉ VICIAR

Podem acreditar, eu era mais feliz quando era mais simples e... mais pobre. Sei que a segunda parte da frase é uma afirmação horrível pra alguns ou muitos de vocês, principalmente os intelectuais que são muito chegados à opção preferencial pela pobreza (embora eu nunca tenha acreditado nessa conversa ilusionista). Pois bem, meus amigos.Vou lhes dar um exemplo dessa minha conclusão. Tempos atrás, fiz uma crônica chamada Lado B que se traduzia em explorar o meu lado mais leve, com preocupações mais existenciais. Este texto aqui pelo seu conteúdo se encaixa no meu Lado C, aquele esquisito, doidão, bizarro. Como veio à tona esse lado? Esses lados vêm ou não à tona, isso não é bem direcionado pela nossa vontade que alguns pensam que tudo pode, mas por alguma ocorrência, algum sinal ou motivação que nos toca mais fundo.
De novo, a TV na minha vida, é isso mesmo, eu gosto muito de TV, de um filminho, de um noticiário básico, de documentários os mais variados e, mais recentemente, dessa temática esquisita, qual seja as catástrofes passadas e futuras da natureza. Neste último caso, me descobri atraída por esse assunto, por acaso.Comprei no segundo semestre de 2007 um daqueles pacotões de filmes e outros programas da NET e HBO e testando vários deles me deparei com o canal 82 The History Channel. Olhem, achei um barato e fiquei fissurada, dependente mesmo. São sinalizações demonstradas por cientistas os mais renomados. Aqueles caras com cara de louco que de tanto conviverem com tais possibilidades já têm o cabelo em pé, os olhos esbugalhados, as mãos agitadas, enfim aquele perfil que em si mesmo já nos apavora. Apresentam continuamente o panorama trágico do que vai ocorrer em determinadas regiões do planeta.São erupções de vulcões, terremotos, maremotos, furacões, destruição em massa, cidades que vão desaparecer como Tóquio, regiões que vão deixar de existir e mais e mais desgraças.Tudo muito explicado e justificado cientificamente, repito. A perfeita “volta do cipó no lombo de quem mandou dar”, como dizia aquela canção "Arueira"de Geraldo Vandré. A mãe natureza que já tem seu lado cruel nas suas entranhas, quando continuamente maltratada pelo homem vai ficando cada vez mais enfurecida e dá o troco mortal.
Vocês a essa altura se perguntam, mas essas catástrofes não vão ocorrer em águas do Pacífico, em terras do Atlântico norte, em regiões orientais, por que você fica tão mobilizada se nosso país está resguardado desses grandes anúncios,a ponto de se viciar com essas noticias e cultivar essas imagens terríveis no seu sagrado lar? Eu respondo a vocês de uma maneira direta: só pode ser minha cabeça de marxista com essa mania de me preocupar com o futuro da humanidade, resquícios da idéia de revolução internacional, só pode ser isso. Fico imaginando aquelas multidões sendo esmagadas e tragadas pela água, pelo fogo, pela terra, um horror. E, esteticamente, aquele montão de destruição. Uma calamidade!
Mas, eu gosto por demais desse canal 82, como diriam os mineiros. Estou viciada, afinal provoca uma espécie de alucinação.Vejam só no que me transformei. Culpa do Lula e de seus companheiros. Pra terminar, diria como ele: Nunca nesse país pude ter um gosto tão bizarro, tão maluco, ao invés de me preocupar com a revolução permanente.
Vou finalizar agora este texto porque daqui a pouco vai passar um programa sobre o vivido furacão Katrina e seus efeitos terríveis, vou ligar a telinha e curtir minha maluquice.
Garanto que parte de vocês está super curioso e penso que terei uns concorrentes. Ou não?

sábado, 23 de fevereiro de 2008

QUE PAÍS É ESTE ? SOMOS TODOS CORRUPTÍVEIS?

Penso que para conhecer e entender mais profundamente nosso país e nosso povo, é preciso vê-los como se fossem nossa infância, ao pé da letra. Vejam bem o que quero dizer: não é na infância que se forma nosso caráter? Não é nela que ficam as marcas mais arraigadas e que moldam nossa personalidade? Não precisamos ser psicanalistas pra termos essa compreensão. É apenas uma questão de melhor conhecimento de nossa história.
Olhem, meus leitores, a culinária mais perfeita é a que mistura os ingredientes marxistas com os psicanalistas. Principalmente, pra explicar o passado de um povo, de um país, de uma pessoa. Atenção meus queridos amigos marxistas, sem preconceitos com esta afirmação! A vida é uma mistura mesmo, de tudo, queiramos ou não.
Mas, voltemos ao nosso passado, assunto que quero tratar agora, sobre a origem e formação de nosso país. Afinal, nós realmente sabemos quais são os reais traços constitutivos de nossa cara, de nossa cabeça, tronco e membros?
Olhem bem, pra chegar às respostas a essas perguntas, não tem muito segredo, não. Basta que recorramos à memória de nossa formação, só precisa que voltemos aos tempos coloniais, que nos debrucemos sobre os primeiros traços de manifestação de nosso caráter enquanto povo, às marcas que nos formaram e nos acompanham até os dias de hoje. É aqui que precisamos encarar de frente os nossos patrícios, os queridos ou não, portugueses da gema, os verdadeiros formadores de nossa nacionalidade brasileira. A começar, vamos lembrar ou reconhecer os reais motivos da vinda desses cabras pra nossas paragens e de sua efetiva contribuição pra nos fazer tal qual somos na atualidade.
A partir dessa introdução, para alguns de vocês ou para muitos, um tanto quanto fora de época e de propósito, vou lhes contar o que me motivou escrever essas mal traçadas linhas. No início da noite da última quinta feira, estava eu procurando na TV um noticiário, quando ao sintonizar determinado canal, as manchetes eram as de sempre: roubalheiras no setor chamado público. Desgostosa com tais informações tão repetidamente espalhadas pelo país inteiro, mudei de canal. Aí foi pior: o apresentador já estava relatando uma notícia sobre a tão famigerada corrupção nos rincões brasileiros. Pensei cá comigo, vou esperar esta notícia passar que talvez venha algo mais original. Eis que vieram mais três casos na mesma linha, um roubo aqui, uma falsificação ali, uma quadrilha acolá. Aliás, lugar comum. Não tive outra opção pro meu estômago já tão embrulhado: desliguei a TV e fiquei matutando a respeito.
Lembrei-me, a propósito, que cerca de uns dois anos, tive acesso a um ranking de honestidade em terras européias e latino-americanas. A Itália e alguns países co-irmãos continentais, entre eles, o Brasil e o Peru, estavam entre aqueles onde honestidade era uma habitante minoritária. Os paises escandinavos, ao contrário, figuravam entre os campeões de honestidade, tendo à frente a Dinamarca. No mesmo momento, veio à minha lembrança uma pesquisa, penso que realizada em 2006 pelo IBOPE, que apresentou como conclusão o índice de 70% de brasileiros situados no campo dos corruptos, corruptores ou corruptíveis. E vejam bem: corrupção encarada não apenas como roubar dinheiro público, mas ações, posturas, comportamentos do cotidiano que espelhavam o nosso caráter desonesto frente às nossas ações do cotidiano. Desde furar filas, solicitar privilégios, aceitar favorecimentos ilícitos ou não, dar propina, enfim, a famosa lei do Gerson: tirar vantagem em tudo.
Daí, meus caros, fiz a conexão com o período colonial e lá tudo isso estava posto: a relação com o chamado bem público, a privatização do Estado a serviço do favorecimento do privado, todas essas coisa que aqui estão até o presente.
Fiquei pensando se essa é realmente a feição dos países onde o Estado foi criado antes da sociedade civil e esta se amoldou ao mesmo, como no caso brasileiro. Diferentemente de países onde foi a sociedade que constituiu o Estado e este foi desenhado de uma maneira mais propícia ao controle social. Ou então, o ser humano como espécie é corruptível geneticamente? A corrupção não está em todos os rincões e conformações humanas: religião, política, profissões, em todas as ações humanas? A condição corrupta não será apenas uma questão de oportunidade, de proximidade com as possibilidades de “acesso” aos bens públicos, aos privados bens de outrem?
Seja o que for, o meu sentimento é de total desconfiança com a possibilidade de mudança nesse terreno. E não me venham com essa conversa pra boi dormir que os políticos profissionais é que são os corruptos, como se eles não fossem parte do povo. Ou ainda, como se o povo ao eleger costumeiros corruptos, não fosse tão corrupto quanto, ao certificar pelo voto a trajetória e interferência dos ditos cujos na ação pública de apropriação dos bens públicos. Ou o mais simples, como se a geradora de todo e qualquer corrupto não fosse a barriga do povo. Mesmo quando ela é uma barriga de aluguel.
Enfim, meus caros, falei bobagem? Ou o mais grave, falei alguma inverdade? Ou ainda, existe mesmo essa invencionice denominada de bens públicos?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A SEXUALIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – JÁ PENSARAM NISSO ?

A Santíssima Trindade, como sabemos, é um mistério.Três pessoas ou entidades numa só é assim que a Igreja Católica nos ensina, algo só aceito no terreno da fé. Há cerca de um ano, um pouco mais talvez, as meninas do Programa Saia Justa, do canal GNT da TV a cabo NET, discutiam a sexualidade de Deus e não chegando a um consenso a respeito, dada a complexidade dessa discussão, jogaram para seus leitores a tarefa de opinar a respeito.
De cara, fiquei interessada a respeito. Dias depois, numa fila de banco presenciei uma conversa entre duas amigas ao comentarem o tal programa:
- Sexo de Deus? Puxa vida, nunca pensei a respeito, sei lá. Se for só Deus, penso que Ele não tem sexo, é mesmo alguém assexuado.
- Da minha parte, concordo com você, alguém pra ter todo esse poder e essa moral intocável, só pode ser assexuado.Até porque o sexo pra Igreja Católica é algo proibitivo, pecaminoso, donde se conclui que ser assexuado é tudo de Bom.
- Quanto aos outros integrantes da Santíssima Trindade, você tem uma opinião?
- Perfeitamente. Jesus não é Deus feito homem? Então, nessa lógica, só pode ser o macho dessa trindade.
- Mesmo sendo ele filho do Espírito Santo?
- É uma explicação preconceituosa da Igreja. Por que não poderia Deus feito homem nascer da barriga de Maria, já que seria um homem como os demais terrenos?
- Não havia pensado nisso, mas faz todo sentido.O Cristo teve uma sexualidade, daí as fofocas envolvendo-o com Maria Madalena.
- Perfeita sua conclusão.Quanto ao Espírito Santo, essa entidade é confusa. Ao mesmo tempo que foi o autor da criação Jesus Cristo na barriga de Maria, Ele é conformado como uma pomba.
- Você sabe da onde veio essa ligação do Espírito Santo com pomba?
- Não tenho a menor idéia. Além do quê, por que o símbolo é uma pomba e não um pombo? A minha interpretação é que com ou sem essa intenção, foi criado o primeiro gay da era cristã, o Espírito Santo.Convenhamos que foi algo super avançado pra aquela época, em se tratando da Igreja Católica sempre tão conservadora em relação a costumes.
- Sem falar que há ainda a pomba gira.
- Mas, essa já é de outro departamento, de outra religião. Merece outro papo.
- Atenção Saias. Se liguem!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

SONHOS, FANTASIAS, ILUSÕES - IMPERIOSAS NECESSIDADES FRENTE À VIDA REAL

Fico pensando o que seria de nós, esses complicados seres terrestres, se não tivéssemos ao nosso alcance esses escapismos deliciosos para nos ajudar frente à realidade crua e nua de nosso nem sempre santo dia. Ao mesmo tempo, imagino se todos os seres precisam, de fato, desses ajudantes. Será que as pessoas que amam a vida, incondicionalmente, precisam menos?
O que sei é que quanto mais vivo mais identifico formas cada vez mais criativas de fugir da vida real e fico fascinada com tais inovações que expressam a capacidade do homem de criar mecanismos, instrumentos e situações de auto defesa e proteção contra realidades insuportáveis ou, simplesmente, buscando ter mais prazer.
Chamo a atenção de vocês para o significado de afirmações de pessoas sensíveis e especiais do nosso planeta que trafegam no terreno dessas necessidades. A Arte, por exemplo, maravilhosa criação do homem, em suas múltiplas expressões, é uma espécie de fantasia maior. Um dos seus representantes, Fernando Pessoa, poeta iluminado, nos apontou que “a arte é uma confissão de que a vida não basta”. Nietzsche afirmou: ” temos a arte para que a verdade não nos destrua”. O sentido explícito e implícito dessas afirmações nos dá munição para uma bela viagem de interpretações.
A Religião é também uma manifestação poderosa nesse território, totalmente diversa da Arte. Nela identificamos variadas manifestações da substituição do nosso próprio significado do que chamamos vida através de seres do além, entes superiores ao homem, os deuses do Bem. Nesse caso, a fantasia atua no papel de proteção, de promessa, de compensação ao exercício do bem, de cura da alma, do sobrenatural. A Religião é um lenitivo extraordinariamente forte e, por vezes, pode produzir paradoxalmente a destruição da vida, em nome dos seres do Bem, como atestam as guerras religiosas em vários períodos históricos.
Acabamos de vivenciar mais uma passagem formal do calendário anual de outra manifestação ilusionista, focada especialmente nos ingredientes da alegria, da folia e do barulho inofensivo, expressões festivas cujo nome é Carnaval. Atuam como uma espécie de vacina coletiva para mais um enfretamento do resto do ano, abrigando um reservatório no atacado da dança e da cantoria com vestimentas fantasiosas, invólucro de pretensões em que vale tudo que se gostaria de ser e como expressão de brincadeira, de deboche, de ironia, de crítica social.
A Tecnologia opera como uma aliada das criações inteligentes, desenhando possibilidades maravilhosas e, por vezes, reveladoras do poder ilimitado na busca da superação do sofrimento e da insatisfação humana ou simplesmente de canais de simulações da felicidade. Do que pude conhecer até o momento, a Second Life, uma das criações mais recentes, é a mais original viagem nesse início do século XXI, como fantástica e até assustadora capacidade da invencionice humana. Este jogo da internet monta uma realidade virtual formada por ilhas que reproduzem cidades e assemelhados, onde pessoas reais tornam-se personagens e desfrutam de uma Segunda Vida. O Avatar, personagem vivente desse mundo virtual, é o nosso avesso, algo como alguém travestido de si mesmo.
O Avatar, meus caros, é produto de nossas mentes e coracões magoados com a vida real, de nosso cansaço com tentativas de ser feliz, do nosso mergulho inútil nos sonhos impossíveis abatidos pela crueza da realidade. Enfim, de nosso saco cheio com nossa vidinha de merda.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O PICHADOR DA MADRUGADA

- O que houve? Por que está correndo assim?
- Deixe eu entrar, pelo amor de Deus. A polícia está vindo atrás de mim. Eles me viram pichando um prédio.
- Está bem, entre rápido.
- Então, é pichador?
- Sou.
- Por que faz isto?
- Pra agüentar essa vida chata que rola por aí.
- Por que logo pichação de prédios na madrugada? Não acha perigoso?
- Por isso mesmo, é divertido porque tem perigo no pedaço.
- E se a polícia te pegar, não tem medo de ser morto?
- Não sei, não penso nisso, atrapalha meu barato.
- Me fala desse barato de pichar. Como é isso?
- É massa. Ficar lá no alto das janelas dos bacanas e tacar o piche é dez. Fazer aqueles desenhos dá um frio maneiro no gargalo.
- Desenhos? O que vejo são garranchos sem nenhuma arte.
- Pra mim é bonito. É a minha arte, o que sei fazer.
- Mas, isso não tem um quê de ser uma vingancinha contra alguém ou alguma coisa? Por que não fazer essa arte no lugar adequado?
- Não sei não. Pode ser isso também. Quero fazer o que tenho vontade, sem ninguém me enchendo o saco, meu pai, minha mãe. Agora, se fosse fazer noutro lugar, não ia ter graça.
- Acho que te entendo.
- Pode parar aqui?
- Adeus. Boa sorte!
Eduardo seguiu em frente, com uma estranha emoção por conta do pichador.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

EU E MEUS DENTISTAS

Meu receio é que ninguém leia esta crônica. Convenhamos que este título é algo assim como espanta leitor, pois a quem interessa saber de minhas experiências com meus dentistas, não é verdade? Mas, eu quis correr o risco e explico o porquê. Desde 1989, eu pensei em escrever este texto e não me perguntem as razões, pois não tenho a menor idéia, simplesmente num papo entre amigos, surgiu o desejo e pronto. Não fiz o texto naquela ocasião e aquela idéia ficou guardada dentro de mim nesses anos todos, como uma espécie de gravidez crônica e, hoje, simplesmente saiu.
Outra dúvida que me atingiu é porque não quis falar dos meus médicos, dos meus terapeutas e outros tais, e, sim, dos meus dentistas. Sei lá, mas, penso que com esses profissionais bucais, sempre tive vivências curiosas, extra dentárias. Relações essas, perpassadas pela cumplicidade, pela identidade política e por um afeto especial. No entanto, concordo com vocês, os que estão achando um tanto quanto esquisito esse papo. Afinal, você vai a um lugar, senta-se numa cadeira, fica com a boca escancarada, com o barulhinho insuportável daquele motorzinho mal-encarado, naquele levanta e deita do cospe-cospe, enfim, algo despido de qualquer possibilidade simpática de estabelecer uma relação de amizade ou de um papo, simplesmente. Até porque quem fala o tempo todo é o dentista, você emite certos grunhidos, parecidos com a voz humana. Mais uma vez, me vem à lembrança nosso Caetano Veloso com sua sábia afirmação que de perto ninguém é normal ao que eu acrescentaria com toda convicção: nem de longe. Só que alguns mais que todos.
O meu primeiro dentista, o Sr X, data de longo tempo, dos idos dourados da minha adolescência em Ribeirão Preto, em São Paulo. Ele era dentista também da minha mãe. Logo percebi nas minhas visitas periódicas, que o tal nutria um certo sentimento por mim que não tinha nada a ver com os meus dentes. Pude ter certeza dessa impressão quando certo dia, depois de uma sessão, ao me dirigir ao ponto de ônibus, fui chamada pelo próprio que trazia às mãos uma melancia e meio esbaforido me comunicou que era pra mim. Meio incrédula com tal visão, só me restou receber o inusitado presente e entrar no ônibus, entre trancos e barrancos, com aquele trambolho nas minhas mãos. Ao subir o último degrau, tentei rapidamente encontrar a primeira cadeira vazia, aonde coloquei aquela senhora fruta de presente para quem ficasse atraída pela mesma. Que situação!
O segundo dentista da minha vida, o Sr Y, foi nos tempos iniciais da ditadura militar, no final dos anos 1960. Era um jovem talentoso e revolucionário, trocávamos idéias a respeito nas minhas visitas ao seu consultório, visto que era uma estudante universitária metida a enfrentar as patas dos cavalos da ditadura militar. Estava eu, certa vez, sentada como sempre, meio a contragosto, naquela cadeira nada confortável, com a boca abertíssima e observava o meu cuidador, que andava agitado de um lado pra outro, num visível nervosíssimo, naquela tarde de setembro. Repentinamente, ele virou-se pra mim e me comunicou, sem mais delongas: ” Vou desaparecer do mapa, sumir, agora mesmo, os meganhas querem me pegar.” E, simplesmente, foi-se, escafedeu-se, deixando-me com a boca escancarada, cheia de dentes. Literalmente. De susto e perplexidade. E, assim, foi-se mais um dentista da minha vida.
O terceiro representante dessa categoria, o Sr Z, surgiu no meu caminho nos idos de 1970, quando eu residia em Londrina, no Paraná. Era um intelectual de esquerda, aguerrido inimigo da ditadura, que realizava sua oposição através de seus clientes, de uma maneira original e curiosa. De pronto, me identifiquei com o mesmo já que minha condição de militante contra a ditadura foi um elo forte a nos aproximar, de maneira muito forte. Com os meus sonhos jovens de mudar o mundo, eu o tinha como uma espécie de conselheiro e confidente. Ele era todo diferente do que se pode esperar de um tratador dentário. Seu consultório tinha duas salas, a que ele atendia aos dentes e uma outra, meio escondida e com cara de conspiração, naqueles tempos perigosos e temidos da ditadura, onde acolhia seus convidados pros papos políticos. E tem mais: marcava horário duplo para essas personagens cúmplices dos seus intentos subversivos. Uma hora para os dentes, de menor importância, e a outra, a hora da política, onde a boca desses seus escolhidos clientes tinha um outro papel, o de trocar confidências e estabelecer estratégias de enfrentamento desse inimigo comum.
Sinto um aperto no peito, neste momento, porque soube anos depois, que esse meu amigo foi-se para o além terra, deixando-me uma doce e estranha lembrança no meu coração.
De fato, não posso me queixar, ir ao dentista naqueles tempos e, ao longo dos outros, até hoje, foi e tem sido uma agradável experiência, diferenciando-me da quase totalidade das pessoas que vêem nessa visita algo doloroso, revestido de medo e apreensão.
Fico pensando, cá com meus botões, que mensagens posso extrair dessa minha ligação com esses meus sujeitos dentários. Vocês têm alguma explicação?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

PESSOAS PREDESTINADAS À SANTIDADE – UM PROBLEMÃO

Pense bem antes de se juntar a uma pessoa cheia de qualidades porque ela poderá ser uma predestinada à santidade e, neste caso, você embarcou numa canoa furada. Isto porque virtudes excessivas podem tornar-se um grande percalço em nossas vidas.
Sei que vocês, leitores, estão surpresos ou, pelo menos, curiosos, com essa afirmação. Vou tentar explicar ou me explicar. A grande maioria dos seres humanos é repleta de defeitos e algumas qualidades, dentro daquilo que se costuma chamar de normalidade, com aspas ou sem aspas. Daí o mais provável é que você esteja nesse grupão; portanto, se você cruzar o caminho de algum ser com o perfil para santidade e optar por viver a seu lado, esteja preparado porque sua vida não será nada fácil. Em todos os sentidos.
Acompanhe o meu raciocínio. A primeira e mais forte razão, é que os santos que conhecemos, todos passaram a vida inteira sofrendo muito, alguns até verdadeiras torturas para fazerem jus ao certificado dessa santa condição. Portanto, as pessoas que privaram de sua companhia na intimidade, participaram desse rito de purificação .O que vem a se traduzir mais ou menos no seguinte quadro: se você viver com esse ente especial, estará num mar permanente de sofrimento e dificuldades nesse lento processo de degraus rumo à santidade. Sua vida (a dos prometidos) será uma série de contínuas provas a serem vencidas, num verdadeiro campeonato, cujo ápice só se dará com a passagem dessa vida terrena, a dos pecadores como nós, para a prometida compensação, no além mundo.
Já podem deduzir que na vida dessas criaturas especiais, tudo será muito penoso, complicado, de difícil acesso.Eles podem ser talentosos, inteligentes, sensíveis, habilidosos, delicados, generosos, afetuosos, amigos, enfim, tudo de bom, mas na hora H de conseguirem aquilo a que fazem jus, por direito e justiça, nada acontece, é aquela dificuldade. Nós, os pecadores terrenos, o restante do planeta, ficamos muito revoltados com tamanha injustiça. Como pode uma pessoa tão virtuosa não ter o que precisa, não ter sido escolhida para o que necessita, não conseguir o que fez por merecer, não ter isto e aquilo?
De outro prisma, pode-se inferir uma outra razão que dê sentido ao fato de um de nós, os normais, estar na companhia de um desses seres em tratamento espiritual, caracterizando o desempenho de uma função especial. Lembro que os futuros santos precisam se submeter permanentemente às tentações de renúncia ao seu futuro status. Aqui é que teremos um papel específico, quer dizer, seremos aquelas criaturinhas que vão azucrinar a vida dessa pessoa especial, pondo à prova sua persistência, através de doses homeopáticas ou de torpedos de perturbação cotidiana. Afinal, somos seres divididos porque, de um lado, resta-nos a honraria de compor um dos degraus de preparação desse futuro santo e, de outro, tentamos desviá-lo de seu caminho, pra livrar a nossa cota de sofrimento nessa empreitada. Aqueles que acreditam em reencarnação, poderão ter o consolo de que nessa sua função de acompanhante, estarão fazendo um treinamento para essa trajetória de santidade, numa futura volta a essa sofrida terrinha.
Poderá haver, se preferirem, uma terceira explicação. Penso que entre os pecadores, existe uma turminha de ex-santos em antevidas que advogam o fim da santidade e atuam junto aos atuais candidatos a essa modalidade, impedindo ou dificultando, por todos os meios, o final de sua rota de chegada porque como viventes das duas formas, pecadores e santos, acharam a vida de santo um tanto quanto sem graça. Inclusive, porque também identificaram naquele território uma relação muito próxima com esse mundo terreno: os pecadores passam a vida pedindo favores aos santos, numa atitude abusiva, assemelhando-se a uma versão celeste da lógica da exploração homem X homem, nas sua múltiplas expressões.
Aqueles que estão pensando que fiz piada com esse tema, estão redondamente enganados. Porque eu asseguro a vocês, é viver pra crer. Eu atesto e tenho dito.