sábado, 15 de março de 2008

O QUE FOI FEITO DE NÓS? O QUE SOBROU DE NOSSOS SENTIMENTOS?

Hoje estou em paragens sombrias, manifestando-se em mim um outro lado meu, talvez o Lado D, de desilusão total. O meu sentimento é de muita tristeza e de desgosto comigo, com meus semelhantes, em relação à degradação contínua de nossas relações, dessas relações tidas como humanas. Ainda, pra combinar com o meu estado, chove muito e faz frio, depois de muito tempo, nesta cidade que teima em ser maravilhosa.
Será que estou exagerando? Ao final deste texto, por favor, me digam.
Vocês também identificam no dia a dia, sobretudo, no ambiente do trabalho, relações cada vez mais frias, distantes, individualistas, sem solidariedade? Já lhes aconteceu de saberem, de chofre, que uma colega de trabalho, faleceu há mais de um mês e vocês nem sabiam que ela estava prestes a nos deixar? Ou, que um outro colega, dos mais antigos, perdeu sua companheira de muitos anos, sem que vocês também soubessem que tal pessoa estivesse doente a esse ponto? Quase ninguém soube à época das mortes. Que coisa horrível! Que vergonha deveríamos sentir de coisas desse tipo acontecerem perto de nós e de, a um passo, poderem também ocorrer conosco.
Hão de convir que fatos como esses são muito graves e estão pipocando por aí, talvez em todos os lugares, de alguma forma, como sintomas graves de nosso fracasso como seres ditos humanos, como resultante de mil razões que nós os ditos intelectuais, defensores dos desvalidos e oprimidos, nos arrolamos o papel de especialistas em diagnosticá-las.
Uma questão séria são as chances de se viabilizar um projeto ético-político X ou Y se os seus atores enfrentam sérios empecilhos na convivência no trabalho, cuja existência dos mesmos não é de sua inteira responsabilidade, é verdade, mas o seu enfrentamento é, sim, da sua alçada, no mínimo, amenizando essas dificuldades para se proteger contra esse tipo de mundo atual. Como disseminar a mensagem da transformação social, se nesta devem fazer parte, necessariamente, os ingredientes da solidariedade, da compaixão, do interesse pela vida do outro, se ele está bem ou não, se no caso, não está, literalmente, às voltas com a morte, o contraponto, afinal, daquilo que consideramos o bem maior, a Vida? Como, meus amigos, transformar o mundo, esse tal mundo destruidor da vida de milhões, se dentro de nós, à nossa volta, não cultivarmos sentimentos germinadores desse amor maior pelas multidões? Como será possível?
Pra amenizar um pouco o tom da minha dor interna, deixem eu lhes contar um fato que, de outro prisma, ilustra bem a degradação das condições materiais de existência, e que também vivi no trabalho, ou melhor, num banheiro do meu local de trabalho. Como o sabonete é um produto absolutamente indisponível em instituições do tipo e, como gosto de lavar as mãos com tal produto, resolvi há uns tempos atrás, levar um sabonete de tamanho normal pra durar mais, já que levava sempre aqueles pequenos que guardava dos hotéis, com tal finalidade. Eis que ao retornar ao mesmo banheiro, umas duas horas depois, cadê o sabonete? Cheguei a duvidar da minha memória, uma estratégia nada fora de cogitação porque ando mesmo meio desmemoriada, que até pode ser um jeito de agüentar esse viver. Mas, uma semana depois, levei outro sabonete do mesmo tamanho e não é que aconteceu o mesmo sumiço. Não precisamos fazer nenhuma análise, não é mesmo?
Frente a esses episódios, não sei o que fazer.Vocês podem me ajudar?
A verdade, meus caros, é que os corredores institucionais em nada se diferenciam das calçadas das ruas das cidades grandes, eles se transformaram em passarelas de uma sala pra outra, onde as pessoas que trabalham naquele local, algumas que até já foram muito amigas, se cruzam, emitem ( ou não) um cumprimento formal, inaudível, e seguem adiante...como se fosse um ato super natural. Não vou aparecer aqui como diferente, eu não tenho vontade de falar com ninguém dessa maneira, é melhor que não nos falemos mesmo.
Mas, vou confessar pra vocês uma verdade interna: eu sofro com isso, eu me sinto mal. Ingenuamente, numa luta interna de crença/descrença, talvez ainda pense ou me esforce pra pensar como Brecht: ”que nunca se diga isso é natural”...


sábado, 8 de março de 2008

O CHIBATÔDROMO

Como vocês sabem, não ando muito bem do juízo, o meu Lado C está em plena erupção – aquele lado totalmente livre, solto, inconseqüente.
Nessa onda, ando pensando muito nos últimos tempos sobre a necessidade de ser criado em nosso país, o Chibatôdromo, uma espécie de reedição modernizada do Coliseu da Roma antiga, com propósitos diferentes, é claro, dadas as premências que esses chamados tempos modernos nos impõem na atualidade. O meu objetivo é outro: usar um instrumento eficaz e que possa sanear, de vez, a crueldade da ação dos infratores/matadores do trânsito. Duvido muito que haja alguém que dirija (ou não) que não tenha tido inúmeras vezes a vontade de literalmente esganar algumas personagens que dirigem por aí, por exemplo, motoristas de ônibus e, por vezes, taxistas além de muitos não santos mortais.
Como seria esse Chibatôdromo? Como o próprio nome indica, construiríamos um lugar tipo um teatro de arena ou ginásio de esporte, onde seriam aplicadas chibatadas, ao pé da letra, nessa turma incontável de pequenos, médios e grandes infratores/criminosos do trânsito. Haveria o funcionário público chamado chibatador com um salário decente e escolhido mediante critérios bem práticos: boa índole, porte físico adequado, bem nutrido, uniformizado e tendo como objeto de trabalho uma chibata de couro resistente e bem cuidada, dentro de um guarda-chibata bem chique.
Seria criado o Código do Chibatôdromo, algo mais ou menos assim, em termos de aplicação das chibatadas, com treze artigos porque, afinal, é o meu número de sorte:
1°- 100 chibatadas para quem matasse 1 pessoa em acidente, acrescida de doação do veículo, fosse seu ou não, para a família da vítima, e perda definitiva da carteira.
Parágrafo Único - Para cada pessoa a mais que morresse vitima do acidente, teria o acréscimo de mais 20 chibatadas.
2°- 90 pra quem provocasse seqüelas graves definitivas, sempre com o mesmo acréscimo do item n° 1: mais chibatadas se atingisse mais gente, apreensão do veículo e perda da carteira.
3°- 80 pra quem provocasse seqüela grave temporária, acrescida de 10 chibatadas pra mais alguém atingido e perda temporária da carteira e do veículo por vinte e quatro meses, ficando este com a família da vitima, se fosse a vontade desta.
4°- 70 se alguém destruísse o veículo de outrem sem vítima, ainda que tivesse seguro, além da apreensão da carteira por 8 meses.
5°- 60 se fosse pego dirigindo embriagado, mais a apreensão do carro por três meses e da carteira por seis meses.
6°- 50 se dirigisse em contra-mão e apreensão da carteira por seis meses.
7°- 40 se dirigisse sem carteira, apreensão da carteira por quatro meses e, em caso de menor de dezoito anos, as chibatadas seriam dadas ao pai, mãe ou responsável.
8°- 30 se dirigisse em velocidade acima da permitida e apreensão da carteira por cinco meses.
9° - 20 se ultrapassasse sinal vermelho e apreensão da carteira por três meses.
10°- 15 se cortasse em direção errada o veículo de alguém.
11°- 10 se dirigisse com carro sem condições de segurança.
12°- 10 se buzinasse de maneira estridente em local e/ou horário proibido.
13°- 5 se xingasse ou ameaçasse com ações o motorista ao lado.
Parágrafos Especiais:
& 1°- Os motoristas de ônibus e de caminhões, além das chibatadas, teriam em qualquer das situações, exceto os itens 12 e 13, suas carteiras cassadas definitivamente.
& 2°- O Chibatôdromo funcionaria como espetáculo público, com ingresso simbólico, cuja renda seria destinada a programas de educação no trânsito
& 3°- Todos os infratores teriam seus rostos e currículos afixados em lugares públicos e divulgados na imprensa escrita, falada, televisada e internet, para que não se aventurassem mais a cometer tais delitos.
& 4°- O Chibatôdromo teria o tempo de funcionamento experimental de 12 meses, findo o qual, seriam medidos os índices de redução das infrações de trânsito.Se o índice fosse no mínimo 90%, seria dada à população 12 meses de oportunidade para a mudança definitiva dos comportamentos nocivos no trânsito. Caso contrário, chibatadas de novo...

Cá pra nós, embaraços à parte, o Chibatôdromo não resolveria a violência do trânsito
?

sábado, 1 de março de 2008

O QUE ASSUSTA PODE ATRAIR E... ATÉ VICIAR

Podem acreditar, eu era mais feliz quando era mais simples e... mais pobre. Sei que a segunda parte da frase é uma afirmação horrível pra alguns ou muitos de vocês, principalmente os intelectuais que são muito chegados à opção preferencial pela pobreza (embora eu nunca tenha acreditado nessa conversa ilusionista). Pois bem, meus amigos.Vou lhes dar um exemplo dessa minha conclusão. Tempos atrás, fiz uma crônica chamada Lado B que se traduzia em explorar o meu lado mais leve, com preocupações mais existenciais. Este texto aqui pelo seu conteúdo se encaixa no meu Lado C, aquele esquisito, doidão, bizarro. Como veio à tona esse lado? Esses lados vêm ou não à tona, isso não é bem direcionado pela nossa vontade que alguns pensam que tudo pode, mas por alguma ocorrência, algum sinal ou motivação que nos toca mais fundo.
De novo, a TV na minha vida, é isso mesmo, eu gosto muito de TV, de um filminho, de um noticiário básico, de documentários os mais variados e, mais recentemente, dessa temática esquisita, qual seja as catástrofes passadas e futuras da natureza. Neste último caso, me descobri atraída por esse assunto, por acaso.Comprei no segundo semestre de 2007 um daqueles pacotões de filmes e outros programas da NET e HBO e testando vários deles me deparei com o canal 82 The History Channel. Olhem, achei um barato e fiquei fissurada, dependente mesmo. São sinalizações demonstradas por cientistas os mais renomados. Aqueles caras com cara de louco que de tanto conviverem com tais possibilidades já têm o cabelo em pé, os olhos esbugalhados, as mãos agitadas, enfim aquele perfil que em si mesmo já nos apavora. Apresentam continuamente o panorama trágico do que vai ocorrer em determinadas regiões do planeta.São erupções de vulcões, terremotos, maremotos, furacões, destruição em massa, cidades que vão desaparecer como Tóquio, regiões que vão deixar de existir e mais e mais desgraças.Tudo muito explicado e justificado cientificamente, repito. A perfeita “volta do cipó no lombo de quem mandou dar”, como dizia aquela canção "Arueira"de Geraldo Vandré. A mãe natureza que já tem seu lado cruel nas suas entranhas, quando continuamente maltratada pelo homem vai ficando cada vez mais enfurecida e dá o troco mortal.
Vocês a essa altura se perguntam, mas essas catástrofes não vão ocorrer em águas do Pacífico, em terras do Atlântico norte, em regiões orientais, por que você fica tão mobilizada se nosso país está resguardado desses grandes anúncios,a ponto de se viciar com essas noticias e cultivar essas imagens terríveis no seu sagrado lar? Eu respondo a vocês de uma maneira direta: só pode ser minha cabeça de marxista com essa mania de me preocupar com o futuro da humanidade, resquícios da idéia de revolução internacional, só pode ser isso. Fico imaginando aquelas multidões sendo esmagadas e tragadas pela água, pelo fogo, pela terra, um horror. E, esteticamente, aquele montão de destruição. Uma calamidade!
Mas, eu gosto por demais desse canal 82, como diriam os mineiros. Estou viciada, afinal provoca uma espécie de alucinação.Vejam só no que me transformei. Culpa do Lula e de seus companheiros. Pra terminar, diria como ele: Nunca nesse país pude ter um gosto tão bizarro, tão maluco, ao invés de me preocupar com a revolução permanente.
Vou finalizar agora este texto porque daqui a pouco vai passar um programa sobre o vivido furacão Katrina e seus efeitos terríveis, vou ligar a telinha e curtir minha maluquice.
Garanto que parte de vocês está super curioso e penso que terei uns concorrentes. Ou não?

sábado, 23 de fevereiro de 2008

QUE PAÍS É ESTE ? SOMOS TODOS CORRUPTÍVEIS?

Penso que para conhecer e entender mais profundamente nosso país e nosso povo, é preciso vê-los como se fossem nossa infância, ao pé da letra. Vejam bem o que quero dizer: não é na infância que se forma nosso caráter? Não é nela que ficam as marcas mais arraigadas e que moldam nossa personalidade? Não precisamos ser psicanalistas pra termos essa compreensão. É apenas uma questão de melhor conhecimento de nossa história.
Olhem, meus leitores, a culinária mais perfeita é a que mistura os ingredientes marxistas com os psicanalistas. Principalmente, pra explicar o passado de um povo, de um país, de uma pessoa. Atenção meus queridos amigos marxistas, sem preconceitos com esta afirmação! A vida é uma mistura mesmo, de tudo, queiramos ou não.
Mas, voltemos ao nosso passado, assunto que quero tratar agora, sobre a origem e formação de nosso país. Afinal, nós realmente sabemos quais são os reais traços constitutivos de nossa cara, de nossa cabeça, tronco e membros?
Olhem bem, pra chegar às respostas a essas perguntas, não tem muito segredo, não. Basta que recorramos à memória de nossa formação, só precisa que voltemos aos tempos coloniais, que nos debrucemos sobre os primeiros traços de manifestação de nosso caráter enquanto povo, às marcas que nos formaram e nos acompanham até os dias de hoje. É aqui que precisamos encarar de frente os nossos patrícios, os queridos ou não, portugueses da gema, os verdadeiros formadores de nossa nacionalidade brasileira. A começar, vamos lembrar ou reconhecer os reais motivos da vinda desses cabras pra nossas paragens e de sua efetiva contribuição pra nos fazer tal qual somos na atualidade.
A partir dessa introdução, para alguns de vocês ou para muitos, um tanto quanto fora de época e de propósito, vou lhes contar o que me motivou escrever essas mal traçadas linhas. No início da noite da última quinta feira, estava eu procurando na TV um noticiário, quando ao sintonizar determinado canal, as manchetes eram as de sempre: roubalheiras no setor chamado público. Desgostosa com tais informações tão repetidamente espalhadas pelo país inteiro, mudei de canal. Aí foi pior: o apresentador já estava relatando uma notícia sobre a tão famigerada corrupção nos rincões brasileiros. Pensei cá comigo, vou esperar esta notícia passar que talvez venha algo mais original. Eis que vieram mais três casos na mesma linha, um roubo aqui, uma falsificação ali, uma quadrilha acolá. Aliás, lugar comum. Não tive outra opção pro meu estômago já tão embrulhado: desliguei a TV e fiquei matutando a respeito.
Lembrei-me, a propósito, que cerca de uns dois anos, tive acesso a um ranking de honestidade em terras européias e latino-americanas. A Itália e alguns países co-irmãos continentais, entre eles, o Brasil e o Peru, estavam entre aqueles onde honestidade era uma habitante minoritária. Os paises escandinavos, ao contrário, figuravam entre os campeões de honestidade, tendo à frente a Dinamarca. No mesmo momento, veio à minha lembrança uma pesquisa, penso que realizada em 2006 pelo IBOPE, que apresentou como conclusão o índice de 70% de brasileiros situados no campo dos corruptos, corruptores ou corruptíveis. E vejam bem: corrupção encarada não apenas como roubar dinheiro público, mas ações, posturas, comportamentos do cotidiano que espelhavam o nosso caráter desonesto frente às nossas ações do cotidiano. Desde furar filas, solicitar privilégios, aceitar favorecimentos ilícitos ou não, dar propina, enfim, a famosa lei do Gerson: tirar vantagem em tudo.
Daí, meus caros, fiz a conexão com o período colonial e lá tudo isso estava posto: a relação com o chamado bem público, a privatização do Estado a serviço do favorecimento do privado, todas essas coisa que aqui estão até o presente.
Fiquei pensando se essa é realmente a feição dos países onde o Estado foi criado antes da sociedade civil e esta se amoldou ao mesmo, como no caso brasileiro. Diferentemente de países onde foi a sociedade que constituiu o Estado e este foi desenhado de uma maneira mais propícia ao controle social. Ou então, o ser humano como espécie é corruptível geneticamente? A corrupção não está em todos os rincões e conformações humanas: religião, política, profissões, em todas as ações humanas? A condição corrupta não será apenas uma questão de oportunidade, de proximidade com as possibilidades de “acesso” aos bens públicos, aos privados bens de outrem?
Seja o que for, o meu sentimento é de total desconfiança com a possibilidade de mudança nesse terreno. E não me venham com essa conversa pra boi dormir que os políticos profissionais é que são os corruptos, como se eles não fossem parte do povo. Ou ainda, como se o povo ao eleger costumeiros corruptos, não fosse tão corrupto quanto, ao certificar pelo voto a trajetória e interferência dos ditos cujos na ação pública de apropriação dos bens públicos. Ou o mais simples, como se a geradora de todo e qualquer corrupto não fosse a barriga do povo. Mesmo quando ela é uma barriga de aluguel.
Enfim, meus caros, falei bobagem? Ou o mais grave, falei alguma inverdade? Ou ainda, existe mesmo essa invencionice denominada de bens públicos?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A SEXUALIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – JÁ PENSARAM NISSO ?

A Santíssima Trindade, como sabemos, é um mistério.Três pessoas ou entidades numa só é assim que a Igreja Católica nos ensina, algo só aceito no terreno da fé. Há cerca de um ano, um pouco mais talvez, as meninas do Programa Saia Justa, do canal GNT da TV a cabo NET, discutiam a sexualidade de Deus e não chegando a um consenso a respeito, dada a complexidade dessa discussão, jogaram para seus leitores a tarefa de opinar a respeito.
De cara, fiquei interessada a respeito. Dias depois, numa fila de banco presenciei uma conversa entre duas amigas ao comentarem o tal programa:
- Sexo de Deus? Puxa vida, nunca pensei a respeito, sei lá. Se for só Deus, penso que Ele não tem sexo, é mesmo alguém assexuado.
- Da minha parte, concordo com você, alguém pra ter todo esse poder e essa moral intocável, só pode ser assexuado.Até porque o sexo pra Igreja Católica é algo proibitivo, pecaminoso, donde se conclui que ser assexuado é tudo de Bom.
- Quanto aos outros integrantes da Santíssima Trindade, você tem uma opinião?
- Perfeitamente. Jesus não é Deus feito homem? Então, nessa lógica, só pode ser o macho dessa trindade.
- Mesmo sendo ele filho do Espírito Santo?
- É uma explicação preconceituosa da Igreja. Por que não poderia Deus feito homem nascer da barriga de Maria, já que seria um homem como os demais terrenos?
- Não havia pensado nisso, mas faz todo sentido.O Cristo teve uma sexualidade, daí as fofocas envolvendo-o com Maria Madalena.
- Perfeita sua conclusão.Quanto ao Espírito Santo, essa entidade é confusa. Ao mesmo tempo que foi o autor da criação Jesus Cristo na barriga de Maria, Ele é conformado como uma pomba.
- Você sabe da onde veio essa ligação do Espírito Santo com pomba?
- Não tenho a menor idéia. Além do quê, por que o símbolo é uma pomba e não um pombo? A minha interpretação é que com ou sem essa intenção, foi criado o primeiro gay da era cristã, o Espírito Santo.Convenhamos que foi algo super avançado pra aquela época, em se tratando da Igreja Católica sempre tão conservadora em relação a costumes.
- Sem falar que há ainda a pomba gira.
- Mas, essa já é de outro departamento, de outra religião. Merece outro papo.
- Atenção Saias. Se liguem!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

SONHOS, FANTASIAS, ILUSÕES - IMPERIOSAS NECESSIDADES FRENTE À VIDA REAL

Fico pensando o que seria de nós, esses complicados seres terrestres, se não tivéssemos ao nosso alcance esses escapismos deliciosos para nos ajudar frente à realidade crua e nua de nosso nem sempre santo dia. Ao mesmo tempo, imagino se todos os seres precisam, de fato, desses ajudantes. Será que as pessoas que amam a vida, incondicionalmente, precisam menos?
O que sei é que quanto mais vivo mais identifico formas cada vez mais criativas de fugir da vida real e fico fascinada com tais inovações que expressam a capacidade do homem de criar mecanismos, instrumentos e situações de auto defesa e proteção contra realidades insuportáveis ou, simplesmente, buscando ter mais prazer.
Chamo a atenção de vocês para o significado de afirmações de pessoas sensíveis e especiais do nosso planeta que trafegam no terreno dessas necessidades. A Arte, por exemplo, maravilhosa criação do homem, em suas múltiplas expressões, é uma espécie de fantasia maior. Um dos seus representantes, Fernando Pessoa, poeta iluminado, nos apontou que “a arte é uma confissão de que a vida não basta”. Nietzsche afirmou: ” temos a arte para que a verdade não nos destrua”. O sentido explícito e implícito dessas afirmações nos dá munição para uma bela viagem de interpretações.
A Religião é também uma manifestação poderosa nesse território, totalmente diversa da Arte. Nela identificamos variadas manifestações da substituição do nosso próprio significado do que chamamos vida através de seres do além, entes superiores ao homem, os deuses do Bem. Nesse caso, a fantasia atua no papel de proteção, de promessa, de compensação ao exercício do bem, de cura da alma, do sobrenatural. A Religião é um lenitivo extraordinariamente forte e, por vezes, pode produzir paradoxalmente a destruição da vida, em nome dos seres do Bem, como atestam as guerras religiosas em vários períodos históricos.
Acabamos de vivenciar mais uma passagem formal do calendário anual de outra manifestação ilusionista, focada especialmente nos ingredientes da alegria, da folia e do barulho inofensivo, expressões festivas cujo nome é Carnaval. Atuam como uma espécie de vacina coletiva para mais um enfretamento do resto do ano, abrigando um reservatório no atacado da dança e da cantoria com vestimentas fantasiosas, invólucro de pretensões em que vale tudo que se gostaria de ser e como expressão de brincadeira, de deboche, de ironia, de crítica social.
A Tecnologia opera como uma aliada das criações inteligentes, desenhando possibilidades maravilhosas e, por vezes, reveladoras do poder ilimitado na busca da superação do sofrimento e da insatisfação humana ou simplesmente de canais de simulações da felicidade. Do que pude conhecer até o momento, a Second Life, uma das criações mais recentes, é a mais original viagem nesse início do século XXI, como fantástica e até assustadora capacidade da invencionice humana. Este jogo da internet monta uma realidade virtual formada por ilhas que reproduzem cidades e assemelhados, onde pessoas reais tornam-se personagens e desfrutam de uma Segunda Vida. O Avatar, personagem vivente desse mundo virtual, é o nosso avesso, algo como alguém travestido de si mesmo.
O Avatar, meus caros, é produto de nossas mentes e coracões magoados com a vida real, de nosso cansaço com tentativas de ser feliz, do nosso mergulho inútil nos sonhos impossíveis abatidos pela crueza da realidade. Enfim, de nosso saco cheio com nossa vidinha de merda.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O PICHADOR DA MADRUGADA

- O que houve? Por que está correndo assim?
- Deixe eu entrar, pelo amor de Deus. A polícia está vindo atrás de mim. Eles me viram pichando um prédio.
- Está bem, entre rápido.
- Então, é pichador?
- Sou.
- Por que faz isto?
- Pra agüentar essa vida chata que rola por aí.
- Por que logo pichação de prédios na madrugada? Não acha perigoso?
- Por isso mesmo, é divertido porque tem perigo no pedaço.
- E se a polícia te pegar, não tem medo de ser morto?
- Não sei, não penso nisso, atrapalha meu barato.
- Me fala desse barato de pichar. Como é isso?
- É massa. Ficar lá no alto das janelas dos bacanas e tacar o piche é dez. Fazer aqueles desenhos dá um frio maneiro no gargalo.
- Desenhos? O que vejo são garranchos sem nenhuma arte.
- Pra mim é bonito. É a minha arte, o que sei fazer.
- Mas, isso não tem um quê de ser uma vingancinha contra alguém ou alguma coisa? Por que não fazer essa arte no lugar adequado?
- Não sei não. Pode ser isso também. Quero fazer o que tenho vontade, sem ninguém me enchendo o saco, meu pai, minha mãe. Agora, se fosse fazer noutro lugar, não ia ter graça.
- Acho que te entendo.
- Pode parar aqui?
- Adeus. Boa sorte!
Eduardo seguiu em frente, com uma estranha emoção por conta do pichador.